Crítica: O HOMEM DE AÇO (sem spoilers)

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A nova aventura do Superman alça voos altos… mas tropeça em alguns momentos

Maurício Muniz

Vamos deixar uma coisa clara, pra começo de conversa (e após tanta discussão na internet): Superman – O Filme, de 1978, ainda é o melhor filme sobre o primeiro super-herói dos quadrinhos. Mas isso não quer dizer que O Homem de Aço faça feio.

Os três nomes principais dos bastidores já tem experiência com quadrinhos e super-heróis. A direção ficou a cargo de Zack Snyder (de 300 e Watchmen), a produção é de Christopher Nolan (diretor da aclamada trilogia recente de Batman) e o roteiro ficou por conta de David S. Goyer (que escreveu, entre outros, Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas e a trilogia Blade). O maior acerto do trio é recontar, de maneira inovadora e surpreendente, uma das origens mais conhecidas do mundo até para quem não é fã hardcore de quadrinhos.

Por exemplo: o filme – como era de esperar – tem início em Krypton, o planeta natal de Superman. Mas este é um Krypton como nunca se viu. Dinâmico, vibrante e cheio de detalhes sobre esta sociedade alienígena, é provavelmente a melhor representação do planeta que já se viu, tanto no cinema quanto nos quadrinhos. É tudo tão interessante que dá a impressão que seria possível fazer um filme só passado no planeta – mesmo se, em alguns momentos, parece que basearam o visual um tanto em Avatar, de James Cameron.

Com a estrutura de Krypton abalada e prestes a se desfazer, após ser abusada por eras por seus habitantes, o cientista Jor-El (Russell Crowe, aqui em modo “herói de ação”) prepara-se para mandar à Terra seu filho Kal-El para salvá-lo da destruição. Mas seus planos podem ser impedidos pelo violento general Zod (Michael Shannon), que pretende tomar o controle de Krypton e descobre que o cientista enviará para longe, junto com seu filho, a matriz genética de toda a população do planeta, para preservá-la. Mas é tarde demais: Kal-El escapa, o planeta explode e Zod e seus asseclas são poupados por pouco, ao serem enviados a uma nave-prisão pouco antes da destruição.

A narrativa continua na Terra, mas evita seguir a rota conhecida de contar a história cronologicamente. Já encontramos Kal-El adulto (Henry Cavill), agora rebatizado por seus pais terrenos como Clark Kent, e tentando levar uma vida normal, na qual não chame a atenção para as habilidades que tem: superforça, invulnerabilidade, velocidade acima do normal e outras. Mas nem sempre é possível manter a discrição, pois ele acaba usando seus poderes para ajudar outras pessoas – ele é o herói da história, afinal. Não demora e Clark descobre que um artefato alienígena foi achado no ártico e infiltra-se em uma expedição para tentar descobrir se o artefato pode estar ligada a ele. Ali, encontra a jovem repórter Lois Lane (Amy Adams), que testemunha os poderes daquele estranho e, quando volta à cidade de Metrópolis, passa a investigar seu passado, seguindo pistas dos lugares por onde passou, mesmo contra a vontade de seu editor, Perry White (Laurence Fishburne).

Clark, enquanto isso, tenta descobrir mais sobre seu passado. Mas antes que tenha tempo de se familiarizar com seu legado, Zod dá as caras na Terra à procura da matriz genética que, ele acredita, pode recriar a população de Krypton. Como o vilão ameaça a Terra, o jovem Clark enverga um uniforme de batalha vindo de seu planeta e enfrenta Zod e seu exército em uma guerra épica, que tem como prêmio o destino da humanidade.

(Aliás, o filme até desvia do caminho algumas vezes para mostrar Superman como o grande “salvador” da raça humana, fazendo vários paralelos com a figura de Cristo. Nada que comprometa, mas um pouquinho mais de sutileza não seria mal, pessoal.)

Quadrinhos de Ação

O filme tem momentos fantásticos e grande parte deles, por incrível que pareça, não envolve socos, correrias e explosões. Onde a trama funciona melhor é ao mostrar os anos de formação de Clark, como ele se tornou o herói que é. Sempre em flashbacks, vemos quando começa a ser afetado por seus poderes ainda na infância; a ocasião em em que salvou seus amigos após um acidente com o ônibus escolar; e uma das cenas mais marcantes do filme, quando enfrenta o perigo de um tornado em Smallville. Nesses momentos, quem brilham são Martha (Diane Lane) e Jonathan (Kevin Costner) Kent, seus pais adotivos. Nunca esses personagens foram mostrados de forma tão realista e humana, tão aprofundada e bem delineada. Costner, então, está bem como nunca na figura do pai dividido entre fazer de seu filho um bom homem e evitar que o mundo descubra sobre seus poderes.

Na verdade, quase todo o elenco está bem. Adams talvez seja a melhor Lois Lane do cinema, com seu jeito esperto e profissional. Só os fãs mais chatos dos quadrinhos ficarão incomodados por Perry White não ser caucasiano como nos quadrinhos, já que a interpretação de Fishburne passa toda a sobriedade e integridade do personagem. A alemã Antje Traue, como Faora, braço direito de Zod, também está ótima: linda, fria e implacável, é quase um perigo maior que o general para Superman. Já Shannon, como Zod, está careteiro e exagerado na maioria de suas cenas. Sem indicação ao Oscar pra ele, sinto muito.

O maior achado, contudo, é mesmo Cavill. O ator inglês, com seu rosto de astro de cinema dos anos 30, encarna um Superman perfeito. Nobre, inteligente, em boa forma física, é um verdadeiro herói dos quadrinhos. É ele que “vende” os bons momentos do filme. Mesmo o clímax, que tem causado polêmica (não, não vamos contar aqui) se torna crível graças à sua reação após o evento. Mas, sobre esse clímax, eu gostaria de comentar apenas uma coisa (e, se você não viu o filme ainda, pule para o próximo parágrafo): muitos esquecem, mas Superman já fez “isso” antes, em situações onde era a única opção. Inclusive com o próprio Zod – nos quadrinhos E no cinema…

Mas o filme comete erros também e naquele que é um dos seus pontos mais sensíveis: as cenas de ação. Algumas delas simplesmente não funcionam tão bem quanto deveriam. Há lutas épicas, com certeza, mas muitas acabam sendo tão grandiloquentes que não têm emoção. Tudo é tecnicamente perfeito, prédios são destruídos, ruas explodem… mas, em boa parte, não são momentos empolgantes. No final do filme, por exemplo, a nave de Zod ataca Metrópolis com um poder de destruição tão enorme e tão monstruoso… que em poucos minutos aquilo tudo parece perder o impacto e o sentido, deixando o espectador um tanto indiferente frente ao exagero. Já a luta final entre Superman e Zod, com socos poderosíssimos que fazem os heróis atravessarem e derrubarem prédios por toda a cidade, é muito boa.

Outro probleminha: algumas coisas parecem meio corridas, como se o roteiro pegasse alguns atalhos. Até o plano final dos heróis contra os kryptonianos parece meio confuso. Ao que consta, a primeira edição do filme tinha três horas de duração e Snyder teve que cortá-la até ficar com as duas horas e vinte minutos atuais. Se essa edição de três horas sair em DVD um dia, tenho a impressão que vai mostrar um filme mais completo e melhor amarrado.

Mas nada tema! Como está, O Homem de Aço é uma grande aventura, repleta de ótimos momentos e uma diversão de primeira. E, como comparações são inevitáveis, tenho que dizer que não é melhor que Os Vingadores. Mas, com certeza, bate fácil alguns dos outros filmes da Marvel, como Thor, Capitão AméricaO Incrível Hulk e ao menos dois Homem de Ferro.

Para o alto e avante. Sempre.

Cotação Antigravidade
(revisada após ver o filme de novo):

4.5

Trailer PERDIDO E MAL PAGO: NERDS EM APUROS

15 comentários sobre “Crítica: O HOMEM DE AÇO (sem spoilers)

  1. Curti a crítica Mau!
    Agora vou compartilhar minhas expectativas pré-filme.
    Quando vi “A Lenda dos Guardiões”, a animação dirigida pelo Snyder, achei um filme com um tom épico cuja história e personagens tinham um potencial muito grande de cativar o público. Digo “potencial” pois na real o filme não disperta empatia pelos personagens, que embora tenham um arco de de evolução de habilidade, isso não é acompanhado por um mudança de comportamento. Quanto as cenas de ação, o tão criticado slow motion estava lá mas de uma forma mais contextualizada do que simplesmente estilística como nos seus trabalhos anteriores Watchmen e 300. Em suma é filme bom mas cansativo e com belas imagens de corujas digitais.
    Agora, o que se esperar de um filme do Superman? Ao ler algumas críticas negativas do filme, me deparei com algumas questões parecidas as da “Lenda dos Guardiões”: personagens com potencial desperdiçado num arco confuso, mas inegavelmente uma história com um tom épico.
    Como fã do personagem, minha expectativa é ver um filme que me desperte empatia e me coloque numa trama convincente que embarque o personagens num conflito psicológico e físico. Um exemplo seria a história “Para o homem que tinha tudo”, onde Ka-El se vê a beira de uma Krypton em ebulição social enquanto vemos Supeman dominado sob a influência de Mongul. Por fim, ele se liberta dessa condição e parte para o embate físico com vilão.
    Será que serei atendido ou estou esperando demais? Quando assistir vou compartilhar minhas impressões aqui.

  2. Caio, procure pela internet as ideias que o Whedon usaria na proposta que fez para um filme do Batman antes do Nolan aparecer. Genial.

    Mateus, hoje vi de novo… e gostei mais ainda. Tanto dos momentos humanos quanto das cenas de ação. Tem uns probleminhas, mas… que filmão!

    Me diz depois o que achou, sim!

  3. Torço realmente que engrene, venda muito e seja legal.. assim abrirá novamente uma concorrência saudável entre Marvel e DC para produção de filme e talvez ai vejamos, Flash, Arqueiro, Aquaman ( Aquaman?? ) e quem sabe o Lanterna não pinte no cinema…rs… e claro a boa e velha LJA…..

  4. Você me deixou com a pulga atrás da orelha, Mauricio. To indo atrás desse roteiro, o pouco que li a respeito me deixou empolgado… ^^

  5. Mesmo assim, nas palavras do PRÓPRIO Whedon: “Batman é um personagem da Marvel no Universo DC”. (eu não concordo, só estou comentando o pensamento dele)

  6. Não é melhor que os Vingadores???

    Tá de sacanagem…Homem de Aço é INFINITAMENTE MELHOR…Deixa de ser fanboy da Marvel rapaz!

  7. Já fiz a minha mea culpa no blox. Superman é sim aquilo que todo fã de quadrinhos espera. Não é sombrio como divulgado. Snyder escondeu o jogo até o final.🙂

  8. Finalmente assisti ao MANO DE AÇO! Hora de dizer minhas impressões.
    [Nem precisa dizer que vai ter spoiler né?]
    O filme é bom, suspendeu meus temores que citei anteriormente, entregando um entretenimento de qualidade mas que peca no aspecto técnico.
    O que me incomodou no filme foi a edição, achei ela muito dinâmica e não dando ao público tempo de digerir as cenas. Por exemplo, logo no início temos uma mulher dando a luz ao filho, depois uma cena de luta e por fim uma explosão de um planeta, a passagem do tempo ficou confusa. Não consegui quantificar em quanto tempo demorou a Jor-el pegar o códex a Krypton em erupção. Infelizmente esse tipo de erro persistiu ao longo do filme.

    Quanto a atuação, conhecia o trabalho do Henry Cavill bem antes do Homem de Aço, o vi pela primeira vez em “O Conde de Monte Cristo” como filho de Edmond Dantés, e depois tive outro contato na série “The Tudors”, onde ele era vassalo fiel de Henrique VIII. Nunca o vi numa atuação tão intensa como no papel de Clark, ele grita, se emociona e entrega um personagem simpático, mas não memorável.

    As cenas dele com a família Kent foram boas, me emocionava a interação deles. A fotografia ajudava muito nestes momentos com closes nos detalhes, pôr-do-sol e muito c

    O vilão foi bem construido, embora lhe falte carisma, sua motivação está bem clara e se apresenta como um adversário a altura do Homem de Aço. Zod foi intenso, cruel e frio. As lutas do Superman contra ele e seus subordinados foram sensacionais!
    Quanto ao assassinato de Zod, houve uma tentativa do roteiro em justificar a morte do personagem numa frase aos berros de Zod que me levou a um dejá-vu: “(nessa disputa) só vai terminar quando um dos dois morrer!”. O Coringa do Nolan falou algo parecido nas suas últimas cenas no Cavaleiro das Trevas, e veja como Batman resolveu e como o Homem de Aço resolveu. Não acho que isso estrague a mitologia do herói, mas o que foi mais prejudicial foi sua incapacidade ao longo do filme de inspirar as pessoas a serem melhores, a trazer esperança.

    Embora goste da sua crítica, tenho que discordar da nota. Acho “4,5/5” muito, “2,5/5” é de bom tamanho pois a edição pesou negativamente. E por falar nisto ao pesquisar quem editou esse filme, descobri que foi o mesmo de “2012”, “O dia depois de amanhã” e “Independece Day”.
    Como diria Kubrick: Direção é só um terço do filme, roteiro é outro terço e edição é outro.
    Goya fez um bom roteiro, Snyder apresentou uma melhora de seus trabalhos anteriores ,mas ainda nada impecável, e David Brenner deixou muito a desejar.
    Vale dizer de Hanz Zimmer que teve o duríssimo trabalho em entregar uma trilha para o filme e entregou um trabalho competente, mas não tão marcante quanto seus trabalhos anteriores.

    Quanto a um futuro filme da Liga, ainda precisaria de um tom menos intimista para os futuros filmes, deixar os personagens mais polidos, aí o projeto engrena.

  9. gostei da crítica. algumas coisas me fizeram refletir e até concordar. (sobre a falta de impacto na destruição etc). sou muito fã do Super-Homem e achei o filme muito foda.
    mas tenho que discordar numa coisa: essa parte que você diz que as coisas parecem meio corridas. bom, realmente são bem corridas mesmo. quando assisti pela primeira vez tive essa sensação também, de não ter entendido uma coisa ou outra. depois assisti de novo e de novo e o que posso afirmar é: assista novamente pois tem muita “ponta solta” que é sugerida ao espectador e não mostrada. (e eu acho isso ótimo, porque exige alguma inteligência e criatividade do espectador ao invés de entregar tudo mastigado).
    embora não pareça numa primeira vista, o roteiro está bem amarrado, sim. tudo que acontece está lá explicado em diálogos muito rápidos. tive essa sensação com Dark Knight, que de tantos detalhes eu só peguei todos depois de ver muitas vezes.
    no mais, parabéns pelo blog. não conhecia e vou acompanhar. abs, t.

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