Crítica: O BEM AMADO

O grande Odorico Paraguaçu está de volta em um dos mais comentados filmes nacionais do ano

Maurício Muniz

A maioria dos leitores do Antigravidade deve ser jovem demais pra lembrar de O Bem Amado, novela escrita por Dias Gomes que a Globo exibiu em 1973 e que foi um de seus maiores sucessos. Na verdade, admito que nem eu me lembro da novela: primeiro porque lá em casa o povo nunca foi muito de acompanhá-las, segundo porque até eu era novo demais na época. Mas lembro bem da série semanal que o canal lançou alguns anos depois e estrelada pelo mesmo elenco da novela, com Paulo Gracindo fantástico como o prefeito pilantra de Sucupira, Odorico Paraguaçu, que sempre se metia em planso mirabolantes e ilegais que volta e meia envolviam o ex-cangaceiro Zeca Diabo, perfeitamente interpretado por Lima Duarte (que em outros tempos dublou o gato Manda-Chuva da Hanna-Barbera: Antigravidade também é trivia).

Agora o universo “rocambolante e audaciante” dessa cidade baiana que é um microcosmo do próprio Brasil está de volta num filme dirigido por Guel Arraes, (de Lisbela e o Prisioneiro e das séries Armação Ilimitada e TV Pirata). Agora é a vez de Marco Nanini fazer o prefeito que tem, como maior problema, a falta de óbitos em Sucupira e a impossibilidade de inaugurar o cemitério local. Enquanto espera alguém morrer, Odorico Paraguaçu vai passando o tempo envolvendo-se num romance às escondidas com as três irmãs Cazajeiras (Andréa Beltrão, Drica Moraes e Zezé Polessa), sendo auxiliado pelo inocente secretário Dirceu Borboleta (Mateus Nachtengaele), fugindo da ira do dono do jornal que é seu rival político (Tonico Pereira) e tentando usar em benefício próprio a sanha assassina – e por vezes muito divertida – de Zeca Diabo (José Wilker).

O texto ótimo do filme, mostrando as aventuras de um governante corrupto e egoísta mas dono de grande carisma, reflete bem o que é o mundo da política no Brasil. E quando mesmo os oponentes de Odorico baixam ao seu nível para tentar vencê-lo, fica claro que não é fácil se manter puro e honesto em meio a esse universo de acordos ilícitos e negociatas. Tudo mostrado, claro, com muito humor – já não se disse que é através das piadas que as maiores verdades são ditas? O roteiro é valorizado pelo elenco fantástico, todos muitos afinados e cientes de que estão dentro de uma fábula bastante brasileira. O destaque vai para Nanini, caricato (no bom sentido, acredite) e muito divertido como o prefeito e Wilker como Zeca Diabo, um homem bom que acredita em justiça num mundo onde ela não existe muito.

Problemas há. Se Arraes apresenta um ótimo trabalho na direção de atores, o mesmo não pode ser dito da direção dos figurantes. Nas cenas de multidões é fácil ver que todos em cena estão perdidos, sem saber pra onde olhar, com a velha expressão de “Que estou fazendo aqui? É pra rir ou pra ficar sério? Pra onde eu olho?”. Outro ponto falho é o ritmo. Mesmo com o ótimo roteiro, há alguns momentos arrastados e de pouco interesse, que fazem o filme parecer mais longo do que é. E isso nunca é bom. Feio dizer, mas em alguns momentos falta ao cinema nacional ser um pouco mais “Michael Bay”.

De qualquer forma, O Bem Amado vale a ida ao cinema. Na verdade, em ano de eleição o filme se torna quase obrigatório por nos lembrar que nunca conhecemos realmente quem estamos colocando no poder. E com dois candidatos que brilham pela falta de carisma tentando ser presidentes do Brasil, a única certeza é que se Odorico Paraguaçu se candidatasse, venceria facilmente as eleições. Tremam.

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