Crítica: O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA

O novo filme do Aranha ainda não é a aventura perfeita do herói, mas é muito superior à trilogia criada por Sam Raimi

Maurício Muniz

Um dos maiores problemas dos filmes do Homem-Aranha dirigidos por Sam Raimi – entre os vários que tinham – era o clima de farsa que os permeava a todo momento. Em quase toda cena, mesmo as (supostamente) mais dramáticas, alguma piadinha era inserida. Os atores pareciam não se dedicar aos papéis com sinceridade, com Tobey Maguire, em particular, parecendo ter sempre um sorrisinho irônico prestes a saltar no rosto e uma constante cara de bobo de quem parece dizer, “Ok, estamos aqui só brincando de heróis e eu estou usando uma fantasia tonta, não precisam acreditar em nada disso”. Tudo era caricatural e meio forçado – basta notar como era retratado o J. Jonah Jameson. Esse clima de brincadeira é uma característica do cinema de Raimi: mesmo seus filmes de terror, como Arraste-me ao Inferno, parecem levar na brincadeira as agruras que os personagens enfrentam. A exceção talvez seja apenas Um Plano Perfeito, sobre dois irmãos que se veem às voltas com o produto de um roubo milionário. No geral, Raimi até se preocupa com suas histórias… só não consegue levá-las a muito a sério.

O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012), dirigido por Marc Webb (500 Dias com Ela) que chega agora às telas, pode ser acusado de qualquer coisa, menos de não levar a sério seus personagens e sua trama.

A história de Peter Parker todo mundo já conhece, seja dos quadrinhos, dos filmes anteriores ou dos desenhos da TV. É uma das tramas mais recontadas da arte sequencial em todos os tempos. O filme traz algumas mudanças nos fatos já conhecidos, mas não muitas.

Após a morte de seus pais, o jovem Peter (Andrew Garfield) é criado por seus tios Ben (Martin Sheen, sempre competente) e May (Sally Field, que traz uma abordagem mais moderna da personagem). Na escola, o rapaz é vitimado por bullies como Flash Thompson, mas faz amizade com Gwen Stacy (Emma Stone), por quem sente uma forte atração. Os maiores interesses de Peter são a fotografia, a criação de alguns brinquedos eletrônicos e descobrir mais sobre o passado dos pais cientistas. Em uma visita clandestina aos laboratórios da OsCorp, onde trabalha o Dr. Curt Connors (Rhys Ifans) um ex-colega de seu pai, Peter é picado por uma aranha geneticamente alterada e não demora a sofrer algumas alterações biológicas.

Durante meses, um dos boatos mais recorrentes ligados ao filme era de que a origem do Homem-Aranha seria modificada e de que seus poderes viriam de experimentos que seu pai teria feito com ele. Na verdade, ainda não se sabe se isso é verdade ou não, pois é algo que pode ser explorado na próximas aventuras nas telas. O roteiro não nega que possa ser esse o caso, mas o que se vê até aqui é a velha e conhecida “picada da aranha” como catalisador da criação do herói. A única coisa que muda é a parte do corpo que leva a picada, que não é mais a mão.

As melhores histórias do Homem-Aranha nunca foram sobre o herói mascarado, exatamente, mas sobre seu alterego. Peter Parker é o verdadeiro cerne do Homem-Aranha e o filme de Webb se concentra, sabiamente, nele. Toda a história da origem demora mais a ser contada do que no primeiro filme da série anterior e aprofunda mais o personagem e as relações com aqueles que o cercam. A interação às vezes dura com o tio, que tenta lhe ensinar lições valiosas; o carinho da tia amorosa que sempre quer protegê-lo; e o começo de um romance com Gwen Stacy. É na interação entre os dois jovens que o filme funciona melhor. A química entre Garfield e Stone é muito grande, duas personalidades corajosas mas algo tímidas que começam uma aproximação que se transforma em amor e proteção mútua. Não é à toa que os dois atores começaram um romance verdadeiro nos bastidores – a vida ainda imita a arte. O relacionamento de Gwen e Peter com o pai da moça, o Capitão George Stacey (Denis Leary) também é bem explorado. O capitão é o guardião tanto da moça quanto da cidade de Nova York e não admite a presença de um vigilante como o Homem-Aranha. Algo que cria tensão entre ele e Peter, quando este tenta defender, num jantar, as supostas intenções benignas daquele misterioso mascarado.

Mas o filme não se apoia apenas em dramas bem narrados. É um filme de super-heróis e o público quer ação. As cenas de corre-corre e pancadaria regulamentares estão lá. Algumas funcionam muito bem e até causam empolgação. Outras, nem tanto. De qualquer forma, a maioria parece mais realista do que já tínhamos visto até agora em outras interpretações do personagem, graças à opção do diretor em realizar o maior número possível de sequências usando dublês. O 3D, mais uma vez, acrescenta muito pouco ao espetáculo e dá pra passar sem ele. A batalha final, com o herói lutando para salvar a cidade, é emocionante e grandiosa o bastante para empolgar.

Mesmo se o filme é bastante sólido, ainda há problemas. Há uma quebra de ritmo ali pelo meio, em que nada de muito interessante acontece. O Lagarto também não é um bom vilão. O Dr. Connors parece muito mais ameaçador em sua forma humana, com algumas nuances de interpretação de Ifans, do que quando vira um monstruoso réptil digital. O roteiro pede que você acredite que ele é um vilão perigoso e você vai fingir que acredita, mas raramente ele dará medo verdadeiro ao espectador. O roteiro em si, não é nenhuma pérola – e Garfield revelou que, quando começaram as filmagens, eles só tinham o esqueleto da trama. Nota-se, mesmo se é competente em vários momentos e traz bons diálogos. Alguns elementos que mereciam ser melhor mostrados – como um passeio do Aranha e Gwen pelos céus da cidade – são mostrados apenas de relance e sem emoção. E mesmo se o final é empolgante, com o Aranha ferido tentando desesperadamente chegar ao edifício da OsCorp, esbarra no pieguismo quando alguns cidadãos de Nova York se unem para ajudá-lo. Há até uma explicação razoável para o motivo desse auxílio, mas traz memórias de que esse tipo de recurso foi usado repetidamente – e de maneira algo idiota – nos filmes de Raimi. Outro cacoete dos filmes de Raimi, o de mostrar o herói em ação sem a máscara, ainda continua aqui em vários momentos. Mas Garfield é uma presença tão mais carismática que Tobey Maguire, que essa opção não incomoda tanto. Há também uma sequência no meio dos créditos, que deixa um gancho tênue demais e de pouco suspense para uma próxima aventura.

O melhor do filme, no final das contais, são mesmo os atores e a forma como a história é contada através deles. Garfield – que sempre sonhou em interpretar o Aranha – é um achado no papel, transmitindo uma credibilidade enorme ao rapaz desengonçado e nerd que precisa se tornar um herói para aplacar sua própria culpa quando o tio é morto por algo que ele poderia ter evitado. Emma Stone é a Gwen Stacy perfeita, saída dos quadrinhos para as telas e arrebatando corações na plateia.

Para os fãs de quadrinhos, dá pra notar algumas citações leves e certeiras, como as fotos de Peter criança o mostrarem sempe usando colete – acessório que o rapaz sempre vestia no início de suas aventuras nos quadrinhos – e um momento em que o lagarto aparece usando um jaleco, seu visual de sempre nas HQs. E a aparição já esperada de Stan Lee está entre as melhores do velhinho. Mas esses mesmos fãs ainda vão reclamar da ausência de J. Jonah Jameson e da célebre frase “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.”

Este ainda não é o filme perfeito do Homem-Aranha mas é um grande avanço frente a tudo que vimos antes. Merece fazer sucesso e nos dar a chance de ver a evolução dos personagens nas continuações.

Cotação Antigravidade:

Confira abaixo o trailer do álbum em quadrinhos
O QUE ACONTECEU AO HOMEM MAIS RÁPIDO DO MUNDO?

28 comentários sobre “Crítica: O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA

  1. Eu senti firmeza nessa opinião porque ela foi bem feita e recheada (A parte do valer ou não a pena a experimentação vai ficar mesmo pra minha experimentação, como deve ser, no dia 6. Mas foi muito útil e agradável ler pontuações sólidas e não vagas sobre o filme em si e frente à trilogia). Esse é o tipo de avaliação que eu gosto de ler, cheio de honestidade e completude de informações.

    Eu nunca passei por aqui, mas vou vir sempre a partir de hoje.

    Muito bom o seu texto, cara!

  2. Maurício, é algo que pode ser comparado a Batman Begins, ou não, já que o passado dos mesmos foi parecido nos cinemas?

  3. Boa.

    Acho que pode facilmente ser considerado SPIDER BEGINS. É por aí mesmo: como o primeiro do Nolan é um filme bem bom, mas não genial, com espaço pra melhorar nos próximos.

    Abraços,

    MM

  4. Humm… Sei lá. Acho que para um reboot se firmar ele teria que mostrar a que veio. E essa crítica do Muniz mostra que é apenas mais um filme do Aranha que, ao invés de um reboot, também poderia ser o quarto filme do Raimi. E tem muitos defeitos. Roteiro fraco? Humm…

  5. Iae Mauricio! Sou um dos que pegaram metrô com você e o Eduardo depois da sessão, curti muito sua critica e concordo totalmente com sua opinião! E realmente fez falta a frase “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades” embora, ela tenha sido dita em outras palavras.. Parabéns ae! ;D

  6. Caramba! Se o filme realmente é isso que o Mauricio diz (que este é o “Batman Begins” do Aranha), podemos esperar um filmão de primeira.

  7. Só discordo em uma coisa: Homem-Aranha 2 está entre os melhores filmes de quadrinhos de todos os tempos. Vai ser muuuito difícil alguém retratar o Octopus como foi feito pelo Sam Raimi e seus excelentes escritores “Gough e Millar”. Sem contar a ótima trama dada a uma das revistas mais fantásticas de Stan Lee: Spider-man No More! Ver Peter sem seus “poderes”,simplesmente para levar uma vida normal, não tem preço.

  8. Primeiramente que diabo de critica é essa que conta todo o filme sem nenhum aviso?
    obviamente não li tudo mais parei mais tarde do que gostaria, lamentavel.
    quantos aos argumentos dizer que os filmes do Raime não levaram a serio o personagem é a coisa mais contraditoria que ja li sobre os filmes (pelo menos os dois primeiros )pois foram um marco na época em que foram lançados,e graças a eles vemos tantos filmes de super herois de la pra, e isso exatamente por levar a um outro nivel,alem do que qualquer outra ja tinha ido.
    agora achar que todo filmes de heroi,agora, obrigatoriamente tem que seguir a linha sombria e realista do batman de nolan é que num tem cabimento, principalmente o homem aranha que não combina de forma alguma com isso, é na época era um ponto positivo nos filmes de raimi o ar mais descontraido engraçado e diurno que casa perfeito pro spider. Agora parece que num é mais.
    O que ninguem vê é que esse reboot não tem a menor desculpa pra repetir erros da primeira franquia e nem criar milhares novos como ja deu pra ver desde que quando começou a ser anunciado, Ja tem base mais que suficiente pra fazer um filme que não desagrade tanto ja nas divulgaçoes a ponto de estragar qualquer expectativa de um fã de verdade.

  9. Gostei mais desse novo Aranha do que ‘Os Vingadores’. O desenvolvimento dos personagens neste filme é MUITO melhor.

  10. O que me dói são as críticas dos ‘manés de sempre’, dizendo que o filme “é bom, mas não se compara aos do Raimi”.

  11. Eu disse! Pô, Caio, continue essa pessoa iluminada que você é! Heheh! Os dos Raimi nunca me convenceram. Aquela briga no trem do ARANHA 2 é um dos piores momentos da história do cinema.

  12. Acabei de voltar do cinema e, ahh, eu S2 o Andrew Garfield, virei fã do cara desde o filme do facebook. A Emma Stone também tá ótema! Pra mim, o filme se sustenta nos dois. Achei o roteiro bem mais ou menos. Mas muuuito melhor que os anteriores, sem sombra de dúvida!

  13. Vi o filme ontem e tenho uma opinião um pouco divergente.
    O que estraga (quase) o filme é a forçação de barra do roteiro em rechear a trama de coincidências. Não vou revelar quais para não forçar spoilers mas é muito estranho que tudo converja para que a trama assuma aquela configuração: de dispositivos de laboratório que não são usados, estranhas incursões em setores do laboratórios da Oscorp que, supostamente, deveriam ser ultra-secretos. A história dos pais do Aranha terem alguma coisa a ver com a origem do heroi; o fato de só o Peter Parker, um estudante secundarista, resolver a tal equação que ele achou (sem querer, é claro) dentro de uma maleta deixada (como assim?) pelos pais de Peter. A coincidência da Gwen Stacy trabalhar na mesma empresa em que o pai do Peter Parker trabalhava….são tantas coincidências que dá pra encher isso aqui.
    Achei o Andrew Garfield bacana, realmente melhor que o Tobey, mas ele tende a ser um pouco careteiro. A Emma tá bacana como Gwen Stacy (repararam que ela usa as mesmas botas que a personagem usava?). O lance com o pai da Gwen (só acho que foi corvadia a polícia não ter colocado a culpa no Aranha). Enfim, ainda acho o Homem Aranha 2 mais emocionalmente melhor, mas essa nova série tem futuro. Só que, para que isso aconteça, ELA tem que morrer. E vocês sabem de quem estou falando…A história do Aranha é uma história de culpas e redenções e, para que isso funcione, esse sacrifício para a deusa Arte tem que ser feito.

  14. Acho que pro povo que está reclamando melhor estava com o Sam Raimi né? (atores descompromissados, brincando de Homem – Aranha, Peter Parker chorão, emo, zé mané, novelinha mexicana entre o casal, roupa de Power Ranger do Duende Verde, roteiros infantis, Gwen Stacy vagaba, excesso de vilões. Sem contar o ganchinho sem-vergonha que ele plantou no primeiro filme pra encher o saco nos posteriores – harry com raivinha do Aranha pq ele matou o papai dele. aH, tenha dó!!!
    Do Raimi, só o Octopus que salvou (aquilo sim foi foda).

    O filme do Marc Webb é melhor e bem mais fiel. Espero que continuem isso e que o novo filme seja ainda melhor.

  15. Caro Mauricio,

    Gostei da análise que fez, me fez pensar em várias coisas. Ainda assim não concordo com a análise. Creio que o que chama de “clima de farsa” das versões de Raimi ajudaram o filme (e não o contrário), além do que a suposta seriedade da versão de Webb acabou por tornar o filme ingênuo demais (e difícil de acreditar).

    É difícil explicar em poucas palavras, mas cheguei a citar seu texto no meu post-resenha do filme lá no meu blog. Se quiser conferir, o link:

    http://www.saposvoadores.net/2012/07/Espetacular-Homem-Aranha-filme-perde-essencia-do-personagem-mas-tem-meritos.html

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