Crítica: SOMBRAS DA NOITE

Na história de um vampiro do século XVIII revivido nos anos 1970, Tim Burton decepciona… de novo!

Maurício Muniz

Antes de mais nada, uma “confissão”: não sou fã de Tim Burton. Ao contrário, até. Mas, admito, gosto bastante de dois filmes do diretor. Ed Wood, a divertida biografia de um dos diretores mais malucos da história do Cinema, e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, que parece um filme de terror à antiga, ao estilo da produtora inglesa Hammer. Mas é só. Edward Mãos de Tesoura? Afetado e chato. Batman? Lento e sem emoção (embora Batman – O Retorno seja melhorzinho). Peixe Grande? Simpático, mas falha em quase todas as suas intenções de cativar. Fábrica de Chocolates? Estética vazia e sem charme. Os Fantasmas se Divertem? Simpático da primeira vez, mas não resiste a uma segunda visita. Planeta dos Macacos? Ruim demais, em todos os sentidos.

O problema do diretor é sempre colocar a estética acima do roteiro. Em seus filmes, a forma quase sempre vence o conteúdo. Mas, até a metade da projeção, eu achei que Sombras da Noite (Dark Shadows, 2012) seria o terceiro filme de Burton do qual eu iria gostar. Me enganei.

O Dark Shadows original foi um fenômeno pop incomum. Começou em 1966, como uma novela diária sem muitos atrativos, até que o produtor Dan Curtis resolveu incluir na trama elementos sobrenaturais como fantasmas, monstros, lobisomens, viagens no tempo e o vampiro Barnabas Collins, revivido após 200 anos e que tenta integrar-se a seus descendentes em pleno século XX. A partir daí, a novela tornou-se um sucesso. Teve mais de 1200 episódios até 1971 – quando foi cancelada –, e gerou livros, quadrinhos, revistas especiais e até uma série nova, em 1991, que durou apenas uma temporada. No processo, atraiu uma multidão de fãs, entre eles Tim Burton e Johnny Depp, que sempre sonhou em interpretar Barnabas Collins.

Vampiro Perdido

É essa dupla que se reune em sua oitava colaboração para dar vida a uma nova versão da novela, desta vez como uma produção cinematográfica de 150 milhões de dólares. A trama é quase a mesma que a original: após recusar as atenções amorosas da bruxa Angelique Bouchard (Eva Green, de Cassino Royale) no final dos anos 1700, Barnabas Collins (Depp) se torna alvo de sua vingança sobrenatural. Primeiro, a noiva de Barnabas, Josette (Bella Heathcote) é levada ao suicídio e, depois, o próprio Barnabas é transformado em um vampiro que é enterrado vivo (ou morto-vivo?) pela população da cidade de Collinsport.

Quase 200 anos depois, em 1972, a situação dos remanescentes da família Collins não é das melhores. A mansão em que moram está se deteriorando, os parentes não se dão muito bem e os negócios de venda de comida marinha vão de mal a pior, em grande parte graças à presença de Angelique, que continua viva e saudável graças a seus poderes, e à concorrência comercial que faz aos Collins. Mas tudo muda quando Barnabas é libertado de seu túmulo por acidente e se apresenta à família. A matriarca Elizabeth (Michelle Pfeiffer, de Batman, o Retorno, ainda muito bonita aos 54 anos) descobre a verdade sobre Barnabas, mas a esconde de sua filha estilo “adolescente revoltada”, Carolyn (Chloë Grace Moritz, de Kick-Ass e A Invenção de Hugo Cabret); do irmão egoísta e mulherengo,  Roger (Johnny Lee Miller, de Drácula 2000); e do problemático filho deste, o garoto David (Gulliver McGrath, também de Hugo Cabret). Além da família, moram na casa a psiquiatra Dra. Julia Hoffman (Helena Bonham Carter, da série Harry Potter e mulher de Burton); o caseiro Willie Loomis (Jackie Earle Haley, de Watchmen) e a nova governanta, Maggie Evans (Bella Heathcote de novo, o que já dá uma boa ideia do que irá acontecer quando se encontrar com o personagem principal), que finge se chamar Victoria Winters e vê fantasmas pela mansão. A todos, Barnabas é apresentado como um primo distante que apareceu para uma visita.

Tim Burton Ataca Novamente

Como o trailer já demonstrava, Burton transfomou em cómédia a reintegração de Barnabas à vida “moderna” e a interação com sua família instantânea, com Depp trazendo ao papel muitos trejeitos do seu Capitão Jack Sparrow, de Piratas do Caribe ­– mas isso não incomoda tanto quanto pode parecer a princípio. A maioria das piadas funciona a contento, mesmo se algumas são bastante previsíveis, como o primeiro contato do vampiro com uma televisão. Na verdade, o roteiro de Seth Grahame-Smith (autor de Orgulho, Preconceito e Zumbis e Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros) não é um primor, mas leva bem a história e o tom leve aqui adotado transforma tudo numa brincadeira divertida. A velha e conhecida trama de “pessoa estranha ajudando a unir uma família”, o principal tema aqui, cria situações interessantes o bastante pra que o espectador queira saber como tudo vai acabar.

Mas é aí que vem o grande problema. A última meia-hora do filme é uma bagunça. Aparentemente sem ideias de como reduzir a trama de 1200 episódios televisivos a meras duas horas de duração, Burton leva tudo a um desfecho rápido e sem coerência, quase abrupto, com vários fatos se atropelando e reviravoltas sem a menor lógica pulando na tela, ao que parece, para fazer referência a elementos da novela original. Um dessas referências, a pior e mais desconexa com tudo que veio antes, até ameaça levar por água abaixo o bom trabalho realizado no filme por Chloë Grace Moritz, uma atriz cada vez mais bonita e interessante – e, talvez, a melhor coisa do filme. É algo que fará o espectador ficar imaginando se cochilou e perdeu alguma explicação… mas, não: é tudo culpa da confusa resolução que tentaram encaixar à força na história e uma homenagem equivocada ao material original. Nem a presença-surpresa de um grande nome do rock ajuda muito. Aliás, quase piora tudo, pois parece mais um dos elementos colocados aleatoriamente na trama apenas para render duas ou três piadas.

Com sua mania de não levar suas histórias a sério, Tim Burton consegue arruinar o que poderia ser um bom filme em sua carreira. Uma pena. Não é surpresa que o filme tenha ido tão mal nas bilheterias, arrecadando menos da metade de seu orçamento nos Estados Unidos. O que elimina as chances de uma continuação, mesmo se a última cena do filme traz uma tentativa de gancho para outra história com os personagens.

O mundo não verá mais Barnabas Collins nas telonas. Mas, infelizmente, ainda sofreremos por um bom tempo com Tim Burton nelas.

Cotação Antigravidade:

3 comentários sobre “Crítica: SOMBRAS DA NOITE

  1. Já gostei muito do Tim Burton. Hoje em dia acho ele um mané, ele faz jus ao título de “O diretor preferido da juventude emo-fresquinho-afetado”.

  2. Boa critica,. pelo trailer ja imaginava o desastre. Transformar um terror gotico em comedia e no estilo Burton afetado nao da. Mauricio, assista “house of dark shadows” esse sim bom filme de vampiro nos moldes classicos dentro desse universo

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