Crítica HQ: A LIGA EXTRAORDINÁRIA – SÉCULO: 1910

League Media

Alan Moore e Kevin O’Neill estão de volta com um dos melhores conceitos dos quadrinhos na atualidade. Mas será que a nova edição especial está no mesmo nível das aventuras anteriores dos heróis literários? E o que Sherlock Holmes e Frank Sinatra têm a ver com isso tudo?

Maurício Muniz, de Vevey (Suiça)

Título: The League of Extraordinary Gentlemen – Century: 1910

Roteiro de Alan Moore, desenhos de Kevin O’Neill

Top Shelf Productions e Knockabout Comics, 80 páginas, 2009 (Disponível nas Importadoras)

Trama: Anos após impedirem a invasão marciana, os membros da Liga Extraordinária – agora com uma nova formação – investigam um possível novo perigo: o nascimento de uma criança que pode representar a destruição do Império Britânico. Em paralelo, acompanhamos Janni, a filha do Capitão Nemo, enquanto tenta livrar-se da influência do pai, algo que trará consequências desastrosas.

Opinião: É estranho e triste que uma série em quadrinhos tão fantástica quanto A Liga Extraordinária não seja pra qualquer um. E, sim, há um certo elitismo inevitável nesse comentário. Mas eu explico.

O volume anterior da Liga, The Black Dossier (inédito no Brasil) foi muito criticado por boa parte do público. A maior parte das reclamações parecia ser de que acontecia pouco naquele volume de quase 200 páginas, que não havia ação e os textos que entremeavam a história em quadrinhos eram chatos e complicados. Bem, mas a verdade é que aquela graphic novel de Alan Moore e Kevin O’Neill é uma das melhores histórias em quadrinhos em muito tempo e uma declaração de amor de Moore à literatura e até, de certa forma, ao cinema, à TV e aos quadrinhos. O verdadeiro motivo pelo qual muitos não gostaram de The Black Dossier é por ser este o volume da Liga que mais “pega pesado” nas referências literárias, usando personagens que são pouco ou nada conhecidos da maioria do público moderno e,vamos admitir, menos ainda da grande maioria dos leitores de quadrinhos, que muitas vezes nem sabem quem escreve os roteiros das aventuras de seu personagem preferido, quanto mais quem são os grandes escritores de humor da Inglaterra no início do século XX. Por isso, entre outras coisas, muitos desses leitores nem perceberam que os agentes do governo inglês que caçam Mina Murray e Alan Quatermain naquela história passada nos anos 50 são Bulldog Drummond, famoso herói dos pulps, um jovem James Bond e uma ainda mais jovem Emma Peel, do clássico seriado inglês The Avengers. Daí, se alguém não sabe quem são esses personagens ou nem os reconhece, todas as outras referências, muito mais discretas (pra não dizer “obscuras”) vão passar em branco e as chances da história ser apreciada diminuem muito. Mas vamos falar de The Black Dossier mais detalhadamente em breve.

Todo esse preâmbulo acima foi para dizer que uma reação parecida (“não entendi, logo não gostei”) pode ser esperada por muitos após a leitura de Century: 1910. A edição é a primeira parte de uma trilogia que deve ser completada até 2010 e que terá a segunda parte passada no ano de 1969 e a terceira passada em 2009. A história começa, como diz o título, em 1910 em Londres. Dos membros originais da Liga que conhecemos restaram apenas Mina e o rejuvenescido Alan Quatermain, que passa por seu próprio filho para evitar perguntas difíceis de responder. Os novos membros são A.J. Raffles, o Ladrão Cavalheiro (criado em 1898 por Ernest William Hornung, cunhado de Sir Arthur Conan Doyle), o imortal Orlando, que muda de sexo de tempos em tempos (baseado no personagem criado por Virginia Wolf em 1928, mas usando outros “Orlandos” da literatura em sua história pregressa) e Thomas Carnacki, um famosos investigador paranormal (criado por William Hope Hodgson em 1910, coincidentemente).

É Carnacki que dá início à aventura quando começa a ter estranhos sonhos, onde vê uma sociedade secreta pôr em ação um plano para criar uma “criança lunar” e destruir a Inglaterra. O grupo decide investigar, encontrando pelo caminho outros ocultistas da literatura fantástica, como Oliver Haddo (criado por W. Sommerset Maugham em 1907 no livro O Mago como uma paródia a Aleister Crowley, o famoso “bruxo” inglês que, entre outras obras, escreveu um romance chamado… Criança Lunar).

Já deu pra entender o que acontece? Moore coloca inúmeras referências na história, as cruza, dá nós… e isso vai formando o cenário em que a aventura da Liga se passa. Na história própriamente dita, não acontece tanta coisa. Os heróis seguem algumas pistas, esbarram em personagens que vimos nos capítulos anteriores (é divertido descobrir o destino do agente governamental Campion Bond) e até confrontam os vilões em um momento tenso. Apesar dessas situações serem interessantes, acaba sendo mais divertido caçar as citações e entender como elas se encaixam neste universo conjunto que Moore criou. É daí que saem as surpresas, como a referência velada à relação entre Sherlock Holmes e seu irmão Mycroft e o surgimento de uma versão do que parece ser o super-herói Stardust, de Fletcher Hanks, no conto em texto no final de edição, onde ainda descobrimos que a própria Mina Murray parece ter participado de uma superequipe de justiceiros nos anos 60!

Mas no que concerne às referências, a que provavelmente é mais interessante e, talvez, a que deve ser menos conhecida pelos leitores, está em duas tramas paralelas da história. Em uma delas, Janni, a filha do Capitão Nemo, tenta escapar da influência do pai e arruma emprego como faxineira numa das piores vizinhanças de Londres. Quando perguntam seu nome, ela inventa um que acha apropriado: Jenny Diver. Na outra trama, retorna à cidade o ex-marinheiro Jack MacHeath, que logo inicia um onda de crimes e assassinatos de prostitutas a facadas. O fato é que Jenny Diver é um personagem menor de A Ópera dos Três Vinténs, peça musical criada por Kurt Weill e Bertolt Brecht. Já MacHeath é o personagem principal da mesma peça e entrou para os nomes famosos da cultura popular com seu apelido: Mack the Knife (ou Mack Navalha), que é o nome de uma canção que já teve versões cantadas por Lotte Lenya, Bob Darin e até Frank Sinatra, que fala sobre a volta de Mack à cidade. E, como vários momentos dessas subtrama aparecem como músicas cantadas pelos personagens em uma espécie de homenagem e paródia aos espetáculos musicais, coincidentemente ou não (e, conhecendo Moore, provavelmente “não”), uma das letras cantadas por Mack aqui encaixa-se quase que à à perfeição ao ritmo da canção Mack the Knife e ainda referencia a própria letra original (clique AQUI para ouvir a versão de Sinatra).

O mais bacana: nada disso é gratuito. O fato de Jenny Diver ser uma prostituta na Ópera de Três Vinténs e a filha de nemo NÃO o ser – mas as duas fundirem-se numa mesma entidade na realidade de Moore – dá o mote para o catastrófico final da história. E o fato do primeiro nome de MacHeath ser Jack, o mesmo do famoso estripador, também cria uma confusão digna de nota e que atende a alguns interesses sombrios. Moore é um gênio, com certeza, mas ele também faz suas pesquisas para colocar todos esses detalhes enriquecedores na trama. Dificilmente ele conhece TODA a cultura popular para citar de cabeça tudo que põe nas histórias da Liga. Mas o fato de que coloca tanta coisa e dá a nós, os leitores, a chance de ir buscar descobrir quem são esses personagens dos quais nunca ouvimos falar, o que são as situações estranhas e eventos misteriosos citados… é uma das coisas que faz os quadrinhos da Liga Extraordinária tão bons. Claro, o resto do roteiro de Moore, com seus diálogos incríveis e aprofundamento de personagens junto aos desenhos estranhos e estilizados de O’Neill, tão perfeitos para esse tipo de história, completam o conjunto.

Difícil achar coisa melhor por aí. Mas depende muito de que vem você é.

Quando é que sai a continuação?

Conclusão: Uma das melhores séries em quadrinhos de todos os tempos volta com uma trama complexa, personagens interessantes e o tipo de referências que a fizeram tão especial no passado. Alan Moore continua essencial.

4.5

17 comentários sobre “Crítica HQ: A LIGA EXTRAORDINÁRIA – SÉCULO: 1910

  1. Pra quê fazer essas críticas a publicações estrangeiras? Não seria mais coerente comentar as publicações depois que são lançadas aqui no Brasil?

  2. Um dos poucos motivos que ainda me fazem ler quadrinhos são os trabalhos do Alan Moore, como a Liga Extraordinária. A Panini anunciou para esse ano as edições definitivas dos dois primeiros volumes da série, e espero que Black Dossier e Century sigam na esteira desses lançamentos.

  3. Valmer,

    Não, não seria mais coerente porque minha intenção é comentar mesmo os gibis que saem lá fora e que podem um dia sair aqui. Ou que já estão saindo, como 1985 e o material do Batman do Paul Dini.

    E os leitores do site sempre podem pegar uma dica legal de material e ir atrás.

    E o motivo principal de “Pra quê fazer essas críticas a publicações estrangeiras?”: Por que eu quero.

  4. Benê disse
    28/Julho/2009 às 12:02 am

    E pra vc é só um gibi! Só um gibi!!!?????????????? hahahahhaahahah [2]

    e realmente o moore é o q ainda me faz ler quadrinhos… ou coisas q ainda tem no cenario underground dos quadrinhos, q sao muito superiores aso hqs do mainstream em uma grande maioria de vezes.

    abraço

  5. Ótima crítica, mas existe mais uma associação “livre e parcialmente oculta/obscura”, que Moore tanto ama, nesse novo volume da Liga. Jenny, na ópera/musical de Brecht/Weil, canta a mais famosa música (só perde para “Mack the Knife”) de toda a produção, “Seerauber Jenny”, “Jenny, a pirata”. A música é bem forte, tocando fundo a ferida dos conflitos sociais na Alemanha dos anos 1920-30 (pré-nazismo), e a letra (que até o brasileiro Chico Buarque já traduziu e adaptou) está disponível pela Internet, mas acredito que os mais espertos perceberão o spoiler em relação ao 1910. No mais, o “cargueiro negro” dos piratas já havia sido “descoberto” por Moore em Watchmen (na trilha-sonora do filme, aparece a música, revelando as óbvias analogias, em versão de Nina Simone).

    Lembrando sempre: o que faz Alan Moore um gênio não são suas referências (afinal, essas referências vem das obras dos outros), mas a maneira como ele combina, mescla, inverte, ironiza, sacaneia e homenageia. Isso é o que faz de Moore um grande autor, provavelmente o maior nos quadrinhos contemporâneos.

  6. Al,

    Ótimo comentário, não sabia e aprofunda ainda mais a ligação. Dá mesmo vontade de dar um beijo no barbudo!

  7. Aliás, o que têm achado dessas críticas de HQs no Antigravidade?

    – Continuam?

    – Param?

    – Sugestões de Material?

    – Alguém quer participar?

  8. Essa história da Liga é muito boa, mas inferior as outras anteriores. O Black Dossier é uma das obras mais geniais do barbudo. A quantidade de referências é absurda e o conceito para se ler a obra é inovador para a linguagem dessa arte, misturando a leitura de Literatura propriamente dita, quadrinhos, e a linguagem do cinema,sem contar o óculos 3D, entre mais coisas (o disco de vinil, tijuana bible e tal). Penso que o Moore fez no Black Dossier quase tudo aquilo que ele pretendia pra série. O grande público tem a mente atrofiada e quando surge alguma história que exija um pouco mais do leitor, eles a tacham de “chata”.

    Como você disse no final, Alan Moore continua essencial (ixi, juro que não queria rimar isso). Só acho exagerado dizer que ele, Morrison ou Bendis são os que seguram as pontas nos quadrinhos, como de costume se tem dito. Qual quadrinho? Qual mercado (argh, palavra repugnante)?. Falar isso é ser limitado e não conhecer tudo de bom que é criado nos quadrinhos mundo afora, ou mesmo nos States.

    Parabéns pela resenha.
    Abraços.

  9. E por acaso existe alguém que tenha catalogado todas essas referências? Algum Blog ou site?
    E quais dessas seriam relevantes para um melhor entendimento e experiência na hora da leitura da HQ em questão?

    Melhor que falar que a HQ é cheia de referências, o interessante mesmo seria mostrar quais são as obras referidas na HQ. O que em parte foi feito nesse ótimo post! =)

    Abraço!

  10. uma vez encontrei um blog que falava sobre estas referências… estou procurando-o novamente. O site trazia três “livros” de referência. um sobre watchmen, um sobre o vol. 1 da liga e um sobre o vol. 2

    estou caçando este blog novamente. Se alguém souber onde está…

  11. E ai galera blz!
    Nao conheço muito o trabalho de Alan More,tirando o fracasso de bilheteria a liga extraordinaria,mas depois desses comentarios acimas vistos creio que nao foi o Alan que fez um mal trabalho e sim quem fabricou o filme.A partir de agora passarei ir mais fundo nessa classica historia!
    vlw galera.

  12. Excelente post. O melhor sobre essa série.

    Gostaria de saber como posso adquirir The Black Dossier. Tem à venda em algum lugar do Brasil? a versão norte americana, claro.

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