Crítica: O Dia em que a Terra Parou

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Lembra que o trailer parecia legal? É, nós também caímos nessa… Saiba um pouco sobre o filme original e entenda porque não gostamos da nova versão

Maurício Muniz, de Dublin

As esperanças eram grandes para a refilmagem de O Dia em que a Terra Parou, considerado um dos grandes clássicos da ficção científica. Mas o filme escorregou em vários pontos.

O Filme Original

A primeira vez em que assisti a versão original de O Dia em que a Terra Parou, lançada em 1951, foi numa outra época, quase lendária e esquecida, quando as redes de TV ainda exibiam ocasionalmente filmes em preto e branco (hoje as TVs abertas parecem ter um medo mortal de colocar qualquer coisa sem cores em sua programação com medo de espantar o público mais jovem, que não apenas não compreenderia que a TV possa exibir algo sem cores como, provavelmente, nem acreditaria que um dia já foram produzidos programas e filmes rodados originalmente em cinza). A trama mostrava um extraterrestre chamado Klaatu que vinha à Terra avisar que precisávamos parar com as guerras, já que estávamos colocando em perigo não apenas a vida em nosso planeta, mas também em outros. A grande preocupação, então, era a possibilidade de que poderíamos realmente mandar a humanidade desta para melhor a qualquer momento com uma guerra atômica. Parecia viável que algum povo extraterrestre vizinho aparecesse para reclamar do barulho em algum momento.

Para provar que Klaatu estava enganado, mal o alienígena colocava os pés na Terra e era acertado pelo tiro de um soldado. Por sua vez, para provar que era um cara educado mas que não iria aceitar abusos, Klaatu chamava Gort, um robô grandalhão que aparecia de repente e transformava em vento as armas e tanques dos militares. O alien era levado para receber tratamento médico, mas acabava fugindo do hospital – quem já ficou internado em hospitais públicos conhece bem esse sentimento. Disfarçado de ser humano (o que era fácil, uma vez que tinha a cara do ator Michael Rennie), Klaatu passava a analisar a vida na Terra, fazendo amizade com uma viúva e seu filho, conhecendo um cientista excêntrico e descobrindo que existiam humanos que não eram assim tão terríveis. Ao final, ele apenas desligava por meia-hora todos os equipamentos elétricos do mundo para mostrar o quão poderosa era sua raça – hospitais e aviões em vôo eram poupados – e que, se não abandonássemos nossa belicosidade, Klaatu e sua turma poderiam voltar um dia pra dar uns tapas em nossa bunda coletiva. Após um dos discursos mais memoráveis do cinema, o alienígena ia embora em seu disco voador, deixando a humanidade com algo a refletir… como, por exemplo, a audácia desses ETs que insistem em meter o bedelho nos assuntos dos outros e, ainda por cima, fazem milhões de donas de casa perderem o capítulo da novela.

Dirigido por Robert Wise – que mais tarde faria O Enigma de Andrômeda e o primeiro Jornada nas Estrelas – o filme era uma obra séria de ficção científica que foi recebida muito bem fora dos Estados Unidos, conquistando público e crítica. Na Terra de Tio Sam, a produção dividiu o público: muita gente não gostou da mensagem de paz que o filme trazia. Os EUA tinham saído vitoriosos da Segunda Guerra Mundial há pouco e ainda (ou “já”?) estavam com o espírito de “conosco ninguém pode”. Essa história de “paz” e “compreensão entre os povos” obviamente era coisa de subversivos. De qualquer forma, com o tempo O Dia em que a Terra Parou acabou sendo considerado um clássico. Uma de suas frases, “Klaatu barada nikto”, usada para ativar os poderes de Gort, tornou-se um dos bordões mais famosos do cinema. E, é claro, neste mundo de falta de idéias que domina o cinema, é lógico que alguém em Hollywood, mais cedo ou mais tarde, iria pensar em fazer uma nova versão.

A Refilmagem: Keanu Barada Niktu

Certamente, alguns críticos por aí vão dizer que o novo O Dia em que a Terra Parou estragou e maculou o filme original. Besteira, uma vez que o filme de 51 ainda está por aí e pode ser visto pelos puristas a qualquer momento. O que a nova versão estraga, na verdade, é uma grande oportunidade de fazer um filme legal e, no processo, transmitir uma boa mensagem para o mundo em que vivemos.

O filme já começa de forma diferente. Provavelmente com medo de que demorasse quase meia-hora até que o astro do filme aparecesse, os produtores enfiaram Keanu Reeves logo no início, como um alpinista que tem um contato imediato – e silencioso – em 1928, na Índia. O sujeito encontra um objeto misterioso, desmaia e, quando acorda, tem uma marca misteriosa na mão, de onde aparentemente foi retirado um pouco de seu material genético. É óbvio, até os ETs são fãs de Keanu e querem levar um pedacinho dele pra casa.

A seguir, o filme pula oitenta anos para nos mostrar a personagem central da trama, a Dra. Helen Benson (Jennifer Connolly, ainda linda aos 37 anos e mais interessante do que todos os efeitos especiais que virão pela frente), uma bióloga renomada que ficou viúva e cuida do enteado chato, Jacob (Jaden Smith, filho de Will Smith e que deve ser o próximo Karatê Kid – você acha que é brincadeira esse lance de Hollywood estar louca por refilmagens?). O moleque é um pentelho que trata mal a madrasta e só quer jogar vídeo games, o que já deixa claro que até o final da trama ele vai aprender alguma lição valiosa e melada.

De qualquer forma, essa vida familiar nada idílica da cientista é interrompida quando ela é convocada às pressas pelo governo. Em sigilo, ela e outros gênios da ciência são informados de que um objeto misterioso vem em direção à Terra e deve cair em Nova York dentro de uma hora. Com o impacto, espera-se uma destruição enorme. Após despedir-se veladamente de Jacob pelo telefone, Helen é levada até a cidade e presencia a aproximação do objeto, que não é um meteoro, mas uma esfera da luz que desce suavemente no Central Park. De lá sai um alienígena estranho que recebe um tiro antes que possa esclarecer suas intenções (sabe como é: quanto mais as coisas mudam…).

Esse começo intrigante e tenso promete, mas é a partir daí que tudo começa a desandar. Como no filme original, o alienígena também é protegido por um robô mas, como hoje em dia as imagens precisam ser mais impressionantes no cinema, o novo Gort é gigantesco e tem uma luzinha que vai pra lá e pra cá como os dos Cylônios, de Galactica. E ele nem tem um nome. É o exército que lhe dã a designação de GORT, uma sigla que a tradutora brasileira vai ter que rebolar pra fazer ter sentido.

Após baleado, o alienígena Klaatu dá a clássica ordem “Klaatu barada nikto”, que faz o Robô desligar todos os aparelhos elétricos das redondezas, deixando também inúteis as armas dos soldados e policiais que rodeiam sua nave. Mesmo assim, Klaatu ainda é levado para um hospital onde, para sorte das fãs que já deviam estar ficando impacientes, ele aos poucos se transforma em Keanu Reeves. Aparentemente simpática à nova forma do extraterrestre, Helen desobedece as ordens da Secretária da Defesa (Kathy Bates) e não injeta um soro da verdade no prisioneiro e, enquanto tentam usar o detector de mentiras para interrogar o alienígena, ele foge da base do exército em que se encontra.

A partir daí, Klaatu vaga pela cidade enquanto a polícia e o exército o procuram. Ele reencontra a cientista, conhece o filho dela e explica os motivos pelos quais veio à Terra, que envolve a destruição que a humanidade está causando à natureza.

O filme poderia seguir vários caminhos em sua “reinvenção” do original. Ser uma aventura emocionante, mostrar-se uma trama séria de ficção científica, dar ênfase à mensagem ecológica ou até virar um novo Independence Day, como parece prometer o cartaz um tanto exagerado (pra não dizer “mentiroso”), mas acaba tentando ser um pouquinho de tudo isso, resultando em quase nada. O maiores clichês acabam dominando a segunda metade, como a inevitável conversa chorosa entre mãe e filho. Por outro lado, alguns conceitos de nanotecnologia são encaixados à força na trama, como os minúsculos insetos cibernéticos que saem de Gort. Mas, pior, são alguns furos: como o governo americano deixou um extraterrestre – com o qual estão apavorados – guardado apenas por um burocrata, sem soldados armados ou câmeras de vigilância por perto? Tudo bem que o filme possa ser passado durante a adminstração Bush, mas esse nível de incompetência já é demais!

Também incomoda muito a pirotecnia que domina o final. Caos, luzes, efeitos especiais: tudo que Hollywood parece mais gostar hoje em dia mas que, ao final, só deixa mais confuso e desconexo um roteiro que já tem um monte de problemas. Um elemento interessante do filme é o encontro de Klaatu com um outro alienígena que vive há décadas na Terra e até formou uma família aqui, que aparentemente não sabe da origem do patriarca. Essa minúscula trama paralela poderia dar uma situação interessante para um filme, apesar de ser estranha a apatia do homem (James Hong, de um monte de filmes e séries de TV) frente ao que pode ser o fim de sua família e do mundo. Uma pena que o personagem apareça e suma tão rápido.

Antes da pirotecnia toda, quando você já está meio que olhando para o relógio, há um raio de esperança com a aparição de John Cleese, um dos maiores comediantes ingleses de todos os tempos. Você pensa que, quem sabe, ele está ali para interpretar uma versão mais velha do Arthur Dent de O Mochileiro das Galáxias, que ele vai sacar uma toalha e pedir carona para uma nave espacial, levando você a tiracolo e salvando-o de ver o resto do filme. Más notícias, porém. Nem o ex-Monty Python consegue fazer muito pra ajudar o filme. E lá se foi uma boa oportunidade pelo ralo. E isso porque o diretor Scott Derrickson, de O Exorcismo de Emily Rose, sonhava há anos em refilmar o original e recontar a história de forma empolgante para as novas gerações. É de se perguntar, então, por que não o fez.

O filme até não foi mal nas bilheterias. Custou 80 milhões e já fez mais de 200 ao redor do mundo – mas apenas 74 deles nos Estados Unidos e Canadá. Tudo bem que a arrecadação fora dos EUA anda se tornando cada vez mais importante para os estúdios recuperarem seus investimentos e verem lucro mas, se fosse há poucos anos, a situação estaria feia para os produtores. Se a meca do cinema continuar produzindo esse tipo de entretenimento insosso, em alguns anos vamos todos acabar assistindo a um documentário europeu chamado O Dia em que Hollywood Parou.

Nota: 6,0

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21 comentários sobre “Crítica: O Dia em que a Terra Parou

  1. Mais um filme que COMPROVA a qua-qua-qualidade da 20th Century FOX e demonstra porque a FOX quer levar um “grana fácil” ao processar a Warner Bros por terem feito e BEM o filme WATCHMEN, não é mesmo?

  2. mais um ano que se passa…
    mais um filme que vai para o ralo…

    e …

    *spoiler* (nem tanto ja que e um filme do keanu reeves)

    mais um filme que em que o personagem do keanu resolve todos os problemas do mesmo jeito. MORRENDO! (vide: contantine; advogado do diabo; matrix; matrix revolutions; e um dos filmes da serie bill & ted.)

  3. Achei o filme horrível. Com um roteiro fraco, sem inspiração. Bem que Poderiam elaborar uns efeitos especiais, realmente especiais, pois pelo que parece de especiais, não tinham nada. A atriz protagonista não deu conta do papel, bem sem sal, faltou realmente “viver” a personagem, que, em momento algum, demonstrou medo ou tensão. Imagina, o mundo se acabando, ela ao lado de um alienígena e não demonstrar nenhuma emoção? Poupa-me, por favor. Infelizmente, Hollywood continua achando que aqui podemos cobrir o fracasso de bilheteria que filmes como esses acabam sofrendo. O público tem que ser mais exigente. Merecemos produções que respeitem nosso suado dinheiro.

  4. acabei de ver o filme e eu até achei legal.. gostei, mas eu esperava muito mais. é o tipo de filme que o trailer é melhor.

    isso que o adriano disse, foi o que pensei tambem!
    eles descobrem que existem alieniginas mas agem com a maior naturalidade. como se fosse normal.

    enfim, acho o filme legal mas concordo com tudo da critica (muito boa por sinal). acho que quem mais se destacou foi o filho do will smith..

  5. Keanu Revees do jeito que ele mais gosta, passou um filme inteiro sem precisar nem abraçar uma mulher, não precisou nem fazer beijo técnico, para ele deve ter sido a glória ganhar os milhões dele sem ter que se sujeitar a esses sacrifícios. O melhor do filme é esse colírio de mulher aparecendo do começo ao fim, nada mais se aproveita além disso, é um típico filme para adolescente e eu até acabei vendo numa quase-matinê cercado de pentelhos barulhentos por todos os lados, uma tragédia completa!

  6. Parabéns!!!
    Muito boa a crítica, você disse tudo, isso foi o que realmente aconteceu. Muito ruim, e poderia ser um sucesso, ter explorado falas e artistas, mas ficaram todos em passant…
    Meio vago, solto, o alienígena se emocionou com frases fracas, sem emoção de que o ser-humano pode ser bom e nunca destruírá por completo a Terra, ele foi enganado muito facilmente e não detonou tudo, nós merecíamos. O roteiro precisava adentrar mais no psicológico e não tentar nos enganar com efeitos especiais, que eu acho também importante.
    Esperei até o fim porque algo podia melhorar, esperava algo supreendente, mas tudo ia piorando ao passar dos minutos.

  7. Inteligente a crítica. Ainda bem que a li após ver o filme, assim pude estar isento de qualquer influência. Parabéns à equipe.

  8. Se o filme fosse igual ao antigo, do que adiantaria a refilmagem!![2]Perfeita a sua colocação Guilherme!

    O filme é um beloo e de um filme, muitoo bem produzido e que me impressionou muitoo, até pensei que n seria bom mas, sair da sala de cinema muitooo encantada com a bela produção, a mensagem é muitoo bem passada! Adoorei

  9. Simplesmente o maximo este filme que eu vi no cinemais de Uberlandia, eu tento explicar como se eu estivesse participando do filme e ajudado a fazer esta maravilha de obra prima que ficou o resultado final deste filme…
    Realmente um dos melhores filmes que ocorrera este fenomeno comigo e olha que não foram poucos hem…

  10. Gente….muito boa a crítica…axo até q pegou leve….porque…fala sério…que filme é esse?…acabei de ver…e me arrependi de ter perdido esse tempo…..Fraquíssimo….com a tecnologia de hoje, os recursos em efeitos especiais…poderiam ter explorado infinitamente mais no filme….e como já foi dito anteriormente aqui, quem se destacou no filme foi o garoto…porque o casal estava apático…sem emoção alguma….e não é porque se trata de Keanu que tudo é perfeito ne?!!!!!ficou tudo no ar…p/ quem não viu o original, é até estranho o final…não fica claro….e quanto à refilmagem, o proprio nome ja diz…está fazendo de novo…e deve sim, ao meu ver, respeitar o texto original….no presente caso fugiu muito….Parabéns pela crítica!!!!

  11. Gostei mais do bom humor do post do que da sua crítica – que não é nada má! Holllywood tem sua fórmula própria de tornar os remakes mais digeríveis,portanto mais vendáveis, ao público mundial contemporâneo;mas devemos admitir que são boas as tentativas de justificar “cientificamente” o que no passado era negligenciado:por exemplo o formato humanóide do alienígena- embora o robô tenha esta forma-o design e a constituição da nave espacial,a ausência de um discurso político pacifista mais contundente, a lógica militar de que a melhor defesa é o ataque, a dimensão da superioridade tecnológica dos visitantes extraterrestres.
    Abraço a todos da equipe!

  12. Vejo tudo de scifi mas ainda não assisti o novo “Terra Parou”. Depois vou ler essa crítica.
    Quase me esqueço… sou fã de vcs, escuto todas as críticas no YouTube (pena q não posso participar delas hehehe).
    Abraço e parabéns!!!!

  13. PARABENS, MAURICIO PARECE QUE OS ARES EUROPEIS ESTÃO INSPIRANDO O QUE ESTA DENTRO DE SUAS
    MADEICHAS(AGORA PRATIADAS NÃO REFLEXIVAS), UM ABRAÇO. AGUARDO ANCIOSAMENTE O ANTIPROGRAMA 8.

  14. Eu detestei este filme!
    esta no cinema quase a dormir, confesso!
    Nao tem nada de original, nem um pouco de acção pelo meio
    So no fim é que despertei para os 5 minutos e unicos de acção!
    Arghh!
    O trailer enganou-me bem.

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