Crítica: Arquivo X – Eu Quero Acreditar

Maurício Muniz viu a nova aventura de Mulder e Scully e comenta porque a volta dos personagens às telas é decepcionante.

ARQUIVO X: EU QUERO ACREDITAR ( The X-Files: I Want to Believe, 2008 )

por Maurício Muniz

Quem acha que Lost, o seriado sobre um grupo de pessoas perdidas numa ilha, virou mania de forma inédita, não estava neste planeta na época de Arquivo X. Criada em 1993 por Chris Carter e contando as aventuras de dois agentes do FBI às voltas com mistérios sobrenaturais e alienígenas, a série foi um fenômeno de proporções monstruosas, dando origens a fã-clubes no mundo todo, conquistando prêmios e a crítica, ganhando um longa-metragem em 1998 e garantindo um lugar de destaque no panteão divino da cultura pop.

Cá entre nós, as quatro primeiras temporadas foram mesmo fenomenais e inovadoras, mas as últimas cinco ficaram tão cansativas e confusas que dava a impressão de que nem o próprio Carter sabia exatamente o que estava acontecendo. Tanto que, nas últimas temporadas, os dois protagonistas, David Duchovny e Gillian Anderson – respectivamente o idealista Fox Mulder e a cética Dana Scully – abandonaram a série que os lançou ao estrelato e foram fazer… bem, nada de muita nota (aparentemente, o tal estrelato não foi tão grande assim). Duchovny demorou a achar um bom papel, o que só fez recentemente na série Californication, e Anderson fez uma ou outra participação pequena em alguns filmes.

Agora, seis anos após o final da série, os dois atores voltam aos papéis que os tornaram conhecidos em Arquivo X: Eu Quero Acreditar, dirigido e escrito por Chris Carter. Se você (como eu) perdeu a maior parte das últimas temporadas da série, precisa saber que Mulder e Scully não são mais agentes do FBI. Ela é médica especializada em crianças e ele, foragido, parece apenas ficar em casa deixando a barba crescer e colecionando recortes de jornais sobre eventos inexplicáveis. Mas, quando uma série de misteriosos seqüestros começa a ocorrer numa região da Virgínia e um ex-padre procura as autoridades alegando ter visões que podem ajudar a solucionar o caso, o FBI procura Mulder, o eterno especialista em casos estranhos, para ajudar nas investigações. Se ele colaborar, todas as acusações contra ele serão retiradas. A única condição que Mulder impõe para ajudar seus antigos empregadores é de que Scully o acompanhe. E assim estamos de volta à dinâmica do seriado e frente a um grande mistério que vai prender nossa atenção pelas próximas duas horas, certo?

Errado. Infelizmente, a tão aguardada volta de Mulder e Scully às telas é decepcionante a não ser que você seja um fã dos mais empedernidos. E os motivos são vários.

É compreensível, sim, que os fãs queiram saber o que aconteceu com Mulder e Scully desde o final da série e como anda o relacionamente entre eles. Porém, não é compreensível que o roteiro passe tanto tempo (e bota “tanto” nisso) em cenas dos dois discutindo o passado e o presente, se devem ou não ficar juntos, se um confia no outro ou não. Deve ser fantástico para os fãs verem os dois ex-agentes abraçadinhos na cama e trocando beijos, mas o ritmo do filme – supostamente uma aventura de ação e mistério – acaba comprometido e uma profusão de momentos entediantes são apresentados ao espectador. Uma trama paralela sobre um paciente infantil e em estado terminal de Scully, que se arrasta por mais tempo do que deveria, também não ajuda muito a melhorar as coisas.

O que sobra em meio a esses momentos supostamente emotivos é uma trama policial envolvendo um seqüestrador de mulheres (o sempre competente Callum Keith Rennie, de Rumo ao Sul) e um ex-padre pedófilo (e dá-lhe apelação) que tem visões sobre os seqüestros. É até interessante toda a tensão criada entre Scully, que trabalha com crianças, e o Padre Joe (o ótimo Billy Connolly, de Fido), e este relacionamento poderia ser melhor explorado na trama. No meio da confusão acaba desperdiçada também a atriz Amanda Peet, como uma agente do FBI que está encarregada das investigações e parece começar a desenvolver uma paixonite por Mulder. Falando nisso, outro ponto fraco da história já aparece logo no começo: a razão um tanto pífia inventada para o FBI querer a ajuda de Mulder. O motivo parece fraco a princípio, mas ficamos na esperança de que haja algo a mais ali… o que não há. É apenas o primeiro escorregão de um roteiro mal construído e que tenta ser mais do que deveria.

E, afinal de contas, o tal caso investigado tem, realmente, algo de sobrenatural? Bem, se lembrarmos que a série era calcada nos casos estranhos, assustadores e surpreendentes investigados a cada semana, com conceitos muitas vezes originais, o “grande mistério” aqui acaba decepcionando mais do que tudo, já que é uma cópia pouco inspirada de elementos vistos tantas vezes nos anais da ficção científica e do terror há mais de um século. Incrível pensar que isso foi o melhor que Carter e companhia conseguiram inventar para uma superprodução do cinema cuja a intenção é reviver a franquia Arquivo X.

Fãs de longa data vão ficar felizes em ver uma curta participação de Mitch Pileggi como o simpático diretor assistente do FBI, Walter Skinner e, talvez, fiquem tristes em notar que alguns elementos conhecidos e criticados da série também estão aqui presentes (como o fato de que Mulder continua sendo aquele cara simpático mas, no fundo, incompetente, que sempre perde a arma e precisa que alguém apareça pra salvar sua pele na última hora). Para quem não é tão fã assim, o filme vai ajudar a lembrar porque não assistia ou parou de assistir Arquivo X.

A Fox está lançando uma caixa de DVD com oito episódios da série considerados essenciais, escolhidos pelo próprio Chris Carter e tirados das seis primeiras temporadas (isso quer dizer que Carter também acha que não tem nada que valha a pena nas temporadas 7 a 9?). E a triste verdade é que, se este novo filme para o cinema fosse, ao invés, um episódio da série de TV, ele não estaria incluído nesta caixa essencial.

Um terceiro longa-metragem da série nos cinemas? Isso, sim, é difícil de acreditar.

O MELHOR: A fotografia do filme, que funciona para criar o clima de mistério e tensão – que o roteiro se esforça em destruir.

O PIOR: A resolução da trama, anti-climática.

NOTA (de 1 a 10): 4,0

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7 comentários sobre “Crítica: Arquivo X – Eu Quero Acreditar

  1. Eu realmente fiquei decepcionada com o filme, embora nao tenha visto a série e nem o primeiro filme. Era mto nova… Mas pelo que minha mae falava e suas amigas, esse filme prometia demaisss!
    Mas foi um grande desilusão, nem o mistério que envolvia o sequestro da agente e da outra menina conseguiu prender a minha atenção. Quando falo em prender atençao são aqueles tipos de filme que vc até prende a respiração pra ver o que acontece na cena com o maior climax. Sinceramente, para mim uma grande decepção! Mas gostei mto da critica e concordo em todos os aspectos. Mas por via das duvidas vou baixar uma temporada do próprio seriado e ver se o seu nome e reconhecimento valem mesmo a pena.

  2. Perfeito seu comentário. Infelizmente o filme é totalmente confuso, sem nada que adicione ao Arquivo X. Chris Carter e os produtores poderiam ter trabalhado muito melhor. Decepcionante. Tão decepcionante, que o meu filho, que é fã ardoroso do X Files, dormiu assistindo ao filme.

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